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Quinta, 08 Dezembro 2016

Lenha no fogão: comida e memória no sul de Minas Gerais

Fazenda São José da Vargem              

     “Eu diria que a cozinha é o útero da casa: lugar onde a vida cresce e o prazer acontece, quente...”

A frase de Rubem Alves soa como verdade absoluta nas casas mineiras. Ao menos naquelas que tive oportunidade de visitar no último fim de semana no sul do Estado.

A convite do CVB de São Lourenço, percorremos estradas que passam por Aiuruoca, Baependi, Serranos e São Vicente de Minas, numa incursão pelo universo de cozinheiras que, na invisibilidade de suas cozinhas, mantêm vivas as tradições da região. A louvável iniciativa me pareceu uma forma inteligente de promover o destino, trazendo à tona um de seus maiores monumentos, a culinária, elemento fundamental na compreensão desse gigante patrimônio cultural que é Minas Gerais.

O roteiro foi concebido por Juliana Venturelli*, cujo trabalho de conclusão de curso na pós-graduação em Memória Social na UniRio foi uma dissertação intitulada NARRATIVAS CULINÁRIAS E CADERNOS DE RECEITAS DO SUL DE MINAS: da memória oral à memória escrita.

O trabalho, que também deu origem a um livro para o qual Juliana ainda busca editora, surgiu de uma inquietação sua: “Eu buscava por um sentido anterior à glamourização da comida, algo em consonância com o que eu vivi nas cozinhas da minha infância. As imprecisões, a demora, a espontaneidade e o amor ao ofício.”

Lenha no Fogão Juliana Venturelli

Na beleza da imprecisão das cozinhas mineiras, Juliana reencontrou caminhos. Ao longo de dois dias intensos e inesquecíveis, ela nos conduziu por alguns deles. A seu lado, tivemos o privilégio de ser recebidos por moradores da região em suas casas, experiência que dificilmente teríamos por outros meios.

Juliana Venturelli

O percurso teve início na Fazenda São José da Vargem, em Baependi, onde as irmãs Marita e Miloca foram nossas anfitriãs. Marita, boa de prosa, nos contava histórias enquanto experimentávamos o farto almoço preparado por Miloca e seus ajudantes, servido no antigo depósito de mantimentos da propriedade. O casarão histórico onde a mais velha nasceu é hoje aberto a visitas de grupos, que são recebidos com um café colonial com todo tipo de quitandas que povoam os cadernos de receitas de Miloca.

Fazenda São José da Vargem

Fazenda São José da Vargem

Fazenda São José da Vargem

Fazenda São José da Vargem

Nosso almoço começou com deliciosos pães de queijo. Em seguida, houve costela temperada com pinga e rapadura, aipim, couve manteiga, angu, tutu, linguiça e torresmos crocantes como biscoitos. Como manda a tradição, a refeição se encerrou com doces e compotas, café e rosquinhas de nata.

Fazenda São José da Vargem

Fazenda São José da Vargem

Fazenda São José da Vargem

Fazenda São José da Vargem

Dali, seguimos pra Cruzília, terra de Juliana e da simpática Hilma, que nos recebeu em sua cozinha, onde nos mostrou o preparo das balas de coco que brilham nas festas de aniversários e casamentos na vizinhança. O trabalhoso processo, que demanda extrema habilidade, parece simples nas mãos de Hilma. Pudemos prová-las ainda mornas, com a textura mais elástica, que se modifica depois. Já secas, resultam balas daquelas que derretem na boca. Uma beleza.

Cruzília

Hilma Cruzília

Hilma Cruzília

O dia seguinte nos reservava experiências ainda mais tocantes.

O almoço oferecido na casa das irmãs Tininha e Terezinha, em Serranos, reuniu algumas das melhores cozinheiras da região. Lurdinha preparou um saboroso frango com leite (leite de verdade, gordo, com nata). Gracinha ficou encarregada do arroz e do feijão (a que acrescenta urucum, o que lhe confere um caldo dourado). Cida nos brindou com taioba refogada e um angu de brilho incomparável.

Serranos Minas Gerais

Serranos Minas Gerais

Serranos Minas Gerais

Serranos Minas Gerais

Serranos Minas Gerais

Serranos Minas Gerais

Dona Sônia garantiu a sobremesa: doce de abóbora, feito com maestria, tal como lhe ensinaram a mãe e a avó. Os cubos de abóbora permanecem duas horas em cal virgem, formando-se uma pele, enquanto o interior se mantém macio e úmido. Minha memória me diz que é o melhor que já experimentei.

Serranos Minas Gerais

Serranos Minas Gerais

No fim da tarde, o destino era São Vicente de Minas. O jantar foi preparado pelo cozinheiro Dito, que comanda na cidade o restaurante Forno Quente. Como calhou de estar fora no dia em que lá estivemos, ele nos deixou um banquete pronto, que foi servido por suas vizinhas Isa e Renata, mãe e filha, que gentilmente nos acolheram em sua casa, uma bela construção histórica. Providenciaram café e broas de coco e de abóbora – não sei se é uma visão romântica, mas minha impressão é a de que, nas mesas mineiras, há sempre café e quitandas à espera de uma visita – e até mesmo um violeiro pra tocar pra nós.

são vicente de minas

são vicente de minas

Ao som da viola caipira, compartilhamos o saboroso jantar feito por Dito: creme de abóbora com carne seca e canjiquinha com costelinha.

são vicente de minas

As horas que passamos ali reforçaram minha convicção de que não há no Brasil povo que acolha como o mineiro. Difícil é ir embora. Como diria Guimarães Rosa, “despedir dá febre”.

 

*Juliana Venturelli guia grupos em visitas periódicas ao sul de Minas, em roteiro intitulado Lenha no Fogão. Os itinerários são cambiantes, não necessariamente idênticos ao que fiz, mas sempre voltados para os cozinheiros entrevistados por ela na pesquisa que deu lastro à sua dissertação. As próximas saídas em 2017 acontecerão de 19 a 22/01 e de 13 a 16/04. Para informações, entrar em contato através do e-mail juliana.saborciranda@gmail.com.

Comentários:
em 08-12-2016
por: Camila Navarro | Viaggiando
Mas que riqueza esse roteiro! Fico tão feliz por ver as tradições mineiras, tão ligadas à gastronomia, sendo preservadas! Estive há poucos meses nessa região. Passei rapidamente, de carro, mas fiquei encantada e com vontade de voltar com mais tempo e conhecer as fazendas, especialmente em Cruzília. Meu roteiro gastronômico poderia ser focado em doces e quitandas (sou vegetariana e os almoços mineiros são fartos em carne, né?). Só com eles eu iria me esbaldar!
em 09-12-2016
por: Juliana
Constance, quanta poesia em frases e imagens! Obrigada por me ajudar a ver de fora o que vem de dentro de mim, desde sempre! Que lindeza!!!!!!
em 09-12-2016
por: Juliana
Camila Navarro! Sou vegetariana também e ao formar os grupos para o roteiro, aviso que pode ter alguém que não coma carne. Menina, eles fazem muitas delícias vegetarianas para nós. Já estão se acostumando com esse público! Veja o que escrevi na página: https://www.facebook.com/lenhanofogao
em 09-12-2016
por: Constance
Puxa, Juliana, fico feliz em saber que, de algum modo, consegui traduzir seu olhar pra Minas Gerais.
em 09-12-2016
por: Constance
Camila, eu ia justamente dizer o que a Juliana disse: ela também é vegetariana e há comidas maravilhosas em Minas além das carnes. Vá!
em 09-12-2016
por: Elisabete Pinheiro
Imagens belas e poéticas! Intensas que suscitam apetite...
em 09-12-2016
por: Flora Maria
Minas é isso mesmo...uma surpresa e um encantamento a cada passo. Como carioca - já amineirada, após 25 anos morando em S.Lourenço -continuo saboreando o jeito mineiro de ser. Colocar mais um lugar a mesa, para os possíveis visitantes inesperados, é o máximo de delicadeza e carinho. Adoro isso tudo que Minas proporciona, e esse roteiro que vocês fizeram é de dar água na boca...
em 10-12-2016
por: Roberta
Lindo!!!!!!
em 10-12-2016
por: Juliana da Mata
Gente, esse roteiro da Ju Venturelli é simplesmente MARAVILHOSO! Tive a oportunidade der ir com minha família e foi perfeito, a comida do "Lenha no Fogão" é divina e o roteiro agrada a todas as idades, tipo de 8 a 80. comida da Miloca é fabulosa,
em 10-12-2016
por: Alicio Charoth
Isso sim Juliana é um roteiro turístico, ético e sensível.
Parabéns por este grande trabalho.
Fico impressionado com a pobreza das instituições nacionais que se responsabilizam por nosso turismo, não sabem a riqueza que temos nas mãos. Obrigado, estou morrendo de vontade de chegar por ai.
em 11-12-2016
por: Juliana
Ju da Mata, você e sua família assim como a Alessandra Fradique e família farão parte da história do roteiro! Foram as primeiras a se aventurarem pelas veredas do sul de Minas comigo!!!! Muito obrigada pelo carinho!
Alício, admiro muito seu trabalho e vejo total ressonância com o que venho propondo também. É uma lástima presenciarmos um turismo em nível nacional tão descuidado com nossas riquezas naturais, culturais e humanas! Mas temos eu, você e outras formiguinhas trabalhando pela sensibilidade... Venha!!!! Um dia eu vou ao seu!!!!
Constance, veja o blog do Alício! Um dia quero fazer a imersão criativa sotoko com ele! Anima????
em 11-12-2016
por: Juliana
esqueci do link! http://cocineroloko.blogspot.com.br/
em 11-12-2016
por: Maria Jose
Que lindeza de tudo ! Do de comer, do de ver e do que recordar!
em 11-12-2016
por: Tarek
Délicias Cultura , Natureza e Gastronomia
em 11-12-2016
por: Constance Escobar
Se animo, Juliana? Claro. Vamos!
em 12-12-2016
por: ceci
Fiquei mais uma vez emocionada, com este lindo trabalho. Gostaria de poder um dia acompanha-la e ter o prazer de participar da prosa com toda doçura dessa gente mineira gostosas como seus quitutes!
Juliana, você sabe o que me emociona em seu trabalho!
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