Meus dias no México e uma saudade irremediável

Janeiro 2018

                                        “Aos poucos aprendo que não há país mais substancial que o México, onde todas as coisas são duma maneira intensa, sem meios-termos.”    (Erico Verissimo)

 

Em México, Erico Verissimo faz um belo relato de viagem ao país latino-americano, uma jornada que lhe trouxe de volta o “urgente desejo de escrever”, salvando-o da monotonia de seu asséptico cotidiano em Washington.

Minha memória buscava constantemente as palavras do escritor gaúcho ao longo dos dias que passei recentemente entre Cidade do México e Oaxaca, como numa tentativa de traduzir a intensidade com que me arrebatavam aqueles lugares.

Voltei com as imagens ainda coladas na retina: as tranças das mulheres, os olhos de jabuticaba das crianças, o colorido dos mercados e dos carrinhos de comida nas ruas, os chiles acariciados nos molcajetes, o balé das salsas preparadas à mesa.

Acima de tudo, voltei com a sensação de uma saudade irremediável do calor e do perfume das tortillas. Particularmente em Oaxaca, tive o prazer de ver de perto, em diversas ocasiões, sua elaboração artesanal: moldadas à mão, uma a uma. A cada cesto que chegava à mesa, renovava-se em mim o prazer de levantar o pano, descobri-las ainda quentes e devorá-las como se fossem as últimas.

Me impressionou a força com que a cultura do milho sobreviveu à opressão do colonizador, permanecendo viva em cada esquina: seja nas tortillerías de bairro ou nos restaurantes de alta gastronomia, a beleza de um comal em ação me pareceu algo intraduzível. Em nenhum outro país da América Latina que eu tenha visitado, senti tão presente o poder da cultura pré-hispânica. Acho que Verissimo concordaria comigo:

                                    “Tenho a impressão – e assim pensa muita gente que conhece melhor o assunto – que no momento mesmo em que os conquistadores erguiam suas casas e palácios à imagem e semelhança dos que tinham deixado em sua pátria, do outro lado do mar, já começavam a sofrer a influência do povo que haviam submetido. Não era apenas o fato de estarem usando o material e até certo ponto a técnica de construção dos nativos. Era mais que isso, misteriosa e imponderavelmente mais que isso.”

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